quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Quarto de hotel.


Eu estava sozinho quando atravessei o Parque do Governador em direção ao Hotel Imperador, bem localizado no centro da cidade, uma parte antiga que ainda conserva ruas de pedras portuguesas e trilhos de bondes. São noites quentes essas noites de fim de ano, talvez não tão quentes quanto as garotas que se arrastam pelas paredes das vielas, mas com certeza mais quentes do que o coração dos cidadãos de nariz empinado que circulam por aqui com suas roupas bem-cortadas, seus faustos e soberbas, que de tão falsos poderiam desmanchar-se e escorrer pelos bueiros quando caisse sobre todos nós, eu, as garotas e os pomposos, as redentoras chuvas de verão.
Parei em frente a fachada do hotel. A calçada ainda estava molhada e não havia ventos, só um trânsito caótico e muitas pessoas aceleradas, e eu já não via tudo como todos, as via ainda mais embaçadas do que de fato são. -O que posso fazer? lamentar? Não... Quem sabe mais tarde, agora eu tenho coisa melhor pra ocupar-me o espirito-. apalpei o bolso da blusa para garantir que não faltariam cigarros. Eu os tinha, e como não houvesse mais pretextos para protelar meu encontro, olhei ainda pela ultima vez todo o mundo miserável que me cercava e ao hotel, um parque, uma rua, várias lojas de roupas, bares, pessoas fazendo compras para o natal cheias de sacolas, mendigos, prostitutas, bêbados, estudantes, cansados, empregados e desempregados, infelizes, amantes e não-amados e um louco.
Sim, é mesmo uma pena que esta cidade tão patética tenha apenas um louco para fazer-me a corte. Eu lhe fitei os olhos com profundidade, buscando seu começo, o segundo exato onde iniciou-se a cruzada contra sua própria alma iludida, e nada vi que não fosse mentira, cuidadosamente medida para não deixar revelar o caminho para a libertação. O louco sorriu para mim e estendeu-me o chapéu, mas não queria dinheiro, queria algo mais nobre.
Cumprimentei o porteiro, senil que pouco incomodava-se com meus motivos, somente entregou-me as chaves e disse - Boa noite-. Abri a grade do elevador, enferrujada mas com muita história, afinal, em seus tempos auréos, quantas moças distintas de familias tradicionais não teriam esquecido seus modos. e suas luvas brancas, com rapazes igualmente fortuitos, dentro das quatro paredes que sobem e descem, como acontece a moralidade, ao sabor da conveniência.
Deparei-me com um longo corredor mal-iluminado, e após atravessá-lo, finalmente, o quarto 27.
Luz fraca, papel de parde verde-grená gasto, carpete, cama velha e uma pequena televisão de 14 polegadas. Fui até a janela, e com algum esforço a fiz correr para que entrasse um pouco de ar. Sentia-me abafado pela noite e pelo medo, uma angústia impertinente fazia-se presente e pus-me a olhar para o passeio, afim de que esquecesse de contar o tempo. Começou a chover, todos procuravam se abrigar e subitamente vi a rua esvaziar. Mal tive tempo de admirar a beleza da preciptação quando uma querela desviou-me a atenção. Dois homens brigavam em frente á um dos bares próximo ao parque, discutiam a plenos pulmões mas não pude distinguir que ofensas trocavam, e sem mais, um deles caminhou até o carro, abriu a porta do motorista, e debaixo de chuva sacou um revolver, atirou 4 vezes, entrou no carro, deu partida e desapareceu.
Juntaram curiosos, evidente, e dentro de poucos minutos o sangue escorria pelos pés daqueles que contemplavam o fim.
Noite de sexta-feira... um morto legitimado pela intolerância e vários pela mediocridade, contudo, estes também completamente sem vida.
Caminhei até o pequeno banheiro, azulejos azuis velhos e uma torneira de pia enferrujada. Molhei meu rosto com generosas doses de água gelada. levantei o rosto e fiquei alguns segundos observado meu rosto, e mesmo através do espelho manchado, pude ver que havia envelhecido, e sem saber o motivo.
Foi quando ouvi girarem a maçaneta.
Voltei para o quarto e a vi, parada, molhada, me olhando, principiando pranto... continuava linda, cabelos ondulados num tom infantil de castanho, os olhos ainda bem verdes, o que contribuia sobremaneira para que seu olhar fosse amoroso, velado e sombrio.
Olhar para ela era como voltar ao passado, quando passava as noites usando drogas, correndo com o carro e partindo corações.
Ela sentou-se na cama e olhava para o nada, e o nada estava no chão. Sem saber se devia abraça-la ou bater-lhe a face, fui para janela.
O que se passou a partir desse momento, e que reproduzo agora com alguma fidelidade, não é digno de piedade, mas de cautela, nenhum vivente está seguro de certas dores.

Ela iniciou o diálogo;

-Soube que estava na cidade... porque voltastes?
-Não o querias? pareces desapontada. Mas não aflinjas teu coração, que a partida é certa e não demoro á desaparecer entre os carros e estas gotas de chuva
-Não compreendestes... o que me aflinge o coração é ter que ver-te aqui, ao alcance dos meu lábios, e não saber se devo me entregar a tal promessa de felicidade, porque caiu a noite e sei bem do teu gosto pela fuga.
-Não fugirei desta vez, irei embora assim que tudo estiver terminado.
-Não me respondestes, porque voltastes?
-Precisava pagar minha dívida contigo
-A mim não deves nada...
-Devo, e vim de longe para pagar-te, e antes que o sol nasça novamente, nada mais terei que ver contigo.
-Então viestes para partir?
-Esperavas o que?
-Que ficasse...
-Contigo?
-Sim... se for de teu agrado, após estes anos, ainda me amas?
-Não vim tratar de amor, ou do que quer que seja essa mania estúpida de iludir-se diariamente.
-Não fale assim, tu não eras amargo, o que te aconteceu de tão doloroso para que ficasses assim, com medo de mim?
-Não a temo!
-Não?...
Ela levantou e veio até mim, aproximou seus labios do meu rosto, e por mais que eu quisesse resistir, não pude.
-Se não me temes, porque desvias o olhar?
-Frio...
-Numa noite de verão? Estranho... Eu sinto calor
-Escute... vim apenas dizer-te...
-Não o diga! esquece o tempos idos, tudo pode acabar hoje para que recomeçamos
-Tu não entendes! eu preciso que saibas que...
-Não! Já disse! cala-te a boca e acalma-te o espirito que a felicidade é vindoura. Eu tenho amado em silêncio todo esse tempo e te esperei! Tu voltastes! Já não há nada que impeça o que deve ser consumado. Numa única noite tuas cores todas misturaram-se em uma miscelânia de gritos e sonhos tortos, que te deixaram cicatrizes mas te serviram de mestre e te guiaram pelo bosque da neve eterna quando tinhas fome! Mas acabou, meu amor... Eu te amo como amo a mim e a todos, amo mais do que seria possivel ao sol brilhar e menos do a beleza ingênua dos teus olhos merecem. Volta, meu anjo, volta que tuas mechas de cabelo desajeitadas serão meu sorriso quando acordar amanhã e te ver dormindo ao meu lado...
-Precisas saber... precisas! Há 4 anos nós estavamos juntos, era noite de natal, lembra? Exatamente neste mesmo quarto, há 4 anos, nós estivemos juntos pela ultima vez e tudo era dor e desespero, fugiamos de nós e do mundo e queriamos imensamente matar uma sede que jamais seria aplacada ainda que pudessemos beber todo o oceano. Eu te amava demais, mais do que seria recomendável para manter-se neste plano viciado de viver juntos, partilhando coisas, brincadeiras, sentenças de adeus... Como?! Diga-me como eu poderia ficar depois daquela noite, disseram-me...
-Meu bem, não precisas dizer, acredite, já não se faz mais necessário
-Brigamos... eu te magoei... não queria
-Esquece...
-Saiste atordoada, nervosa...
-Esquece...
-Disseram-me "morta"
-Esquece...
-E agora...
-Eu te amo
E beijou-me longamente, e já não ensaiava mais resistências, nem as queria... fiquei absorto e fui inocente novamente.
Chovia...

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